É fácil perceber que a seleção brasileira poderia jogar mais em casa. Embora tenha garantido nove partidas durante o ciclo das Eliminatórias, um amistoso aqui e ali também cairia bem. O problema? Precisamos de adversários para isso.
Recentemente, a Bolívia tentava organizar um amistoso contra a Gâmbia, mas os africanos desistiram. Vamos combinar, ir para a Bolívia em cima da hora não é exatamente a proposta mais atraente, especialmente quando jogar no Brasil é muito mais convidativo. E, na verdade, a situação de conseguir amistosos não está fácil nem para a Argentina. Em março, eles conseguiram trazer a Mauritânia e a Zâmbia, e agora buscam Burkino Faso e, para a despedida de Messi, o Benim — todas seleções africanas que não participaram de Copas do Mundo.
Sobre o amistoso contra o Benim, tudo parece estar caminhando bem. Porém, o jogo no sábado contra Burkino Faso teve um desenrolar quase cômico. O time principal não conseguiu viajar. Se foi um problema com o avião? Pode ser. Mas muitos jogadores também estavam relutantes, achando que viajar para um amistoso após jogos competitivos na África seria um sacrifício grande demais. Resultado: no último minuto, enviaram a equipe sub-23. Chegaram em Buenos Aires no horário do almoço e, poucas horas depois, já estavam em campo no Estádio Monumental. O resultado? Tomaram três gols nos primeiros onze minutos e perderam por 7 a 0. O técnico argentino, Lionel Scaloni, admitiu que essa situação está longe do ideal, mas ressaltou que não há muitas opções de adversários disponíveis.
Falando da seleção brasileira, é interessante notar que nunca jogou em Roraima, Acre, Amapá, Rondônia e Tocantins. Desde os anos 90, não pisa em Santa Catarina, Piauí, Paraíba e Espírito Santo. E Sergipe? A última vez foi em 1969. Mesmo assim, o time escolheu jogar na Austrália, para um público reduzido na Índia.
Um fator relevante nessa história é a localização geográfica da América do Sul. Especialmente no Cone Sul, onde o futebol é forte, a distância até outras partes do mundo é significativa. Para você ter uma ideia, a distância entre Buenos Aires e a Cidade do México é maior do que entre Londres e Mumbai. Temos o Oceano Atlântico de um lado e o Pacífico do outro. Isso torna complicado atrair adversários para amistosos, já que as distâncias são imensas.
Além disso, a criação da Liga das Nações na Europa complicou ainda mais as coisas. As seleções europeias estão tão ocupadas que fica quase impossível agendar amistosos. No ciclo entre a Copa do Catar e a próxima, o espaço para jogar contra europeus foi quase inexistente, com algumas poucas exceções. Assim, fica difícil trazer os europeus para a América do Sul ou até mesmo enfrentá-los na Europa. Essa situação parece que beneficia a Europa em termos de calendário e jogos competitivos, mas a deixa isolada em relação a outras federações.
Uma das consequências dessa centralização é a dificuldade em formar parcerias com outras confederações. A campanha para substituir Gianni Infantino na FIFA está perdendo força. Com a proximidade do próximo Congresso, a seleção brasileira, mais uma vez, terá que ir para a Ásia. Eles vão enfrentar o Japão e o país anfitrião, Singapura. Mas, com a Ásia organizando sua própria Liga das Nações, a busca por adversários em amistosos deve se tornar ainda mais desafiadora.