Philipp Lahm, ex-lateral e capitão da seleção alemã, trouxe à tona uma reflexão interessante sobre o Manchester City. Em uma coluna publicada no “The Guardian”, ele destaca que a avaliação do clube não deve se restringir apenas ao que acontece dentro de campo, mas também ao que representa fora dele. Para Lahm, o futebol do City, sob o comando de Pep Guardiola, é admirável, mas ele levanta preocupações sobre a desconexão do clube com as suas raízes e as implicações de suas ações.
Lahm acredita que a discussão sobre as possíveis infrações financeiras do Manchester City vai além de punições esportivas. Ele vê isso como uma questão que envolve a relação entre os grandes clubes, seus torcedores e a sociedade. Para ele, a excelência no campo não pode ser uma justificativa para eventuais irregularidades, e ele defende um modelo de gestão que valorize a participação dos torcedores nas decisões dos clubes.
Ele menciona que o Manchester City não se tornou forte apenas por contratar estrelas já consagradas, mas também por desenvolver talentos como Kevin De Bruyne, Rodri e Ilkay Gündogan. Essa abordagem diferenciada, segundo Lahm, faz com que o City se destaque em comparação a outras equipes que focam apenas em adquirir os jogadores mais badalados.
No entanto, mesmo com esse reconhecimento, Lahm não deixa de questionar a estrutura que sustenta o sucesso do clube. O Manchester City foi considerado culpado em 114 das 115 acusações sobre violações das regras financeiras da Premier League, referente ao período de 2009 a 2018. Embora o clube tenha recorrido da decisão e continue negando qualquer irregularidade, Lahm ressalta que, do ponto de vista externo, o City não se diferencia muito de outros grandes clubes europeus. Ele se pergunta: “De que valem as conquistas em campo se vierem acompanhadas de violações das regras?”
Além disso, Lahm defende a regra 50+1, que é um princípio do futebol alemão. Essa norma assegura que os clubes mantenham a maioria dos direitos de voto em suas sociedades esportivas, limitando a influência de investidores externos nas decisões. Isso permite a entrada de capital privado, mas busca preservar a voz dos associados sobre o futuro das instituições. Essa proposta tem como objetivo garantir que os clubes permaneçam conectados à comunidade que os apoia.
Ele acredita que a participação dos torcedores é fundamental para a cultura esportiva na Alemanha e que essa ligação precisa ser mantida. Para Lahm, essa relação é vital para que os estádios continuem sendo espaços de convivência e diálogo. Ele observa que a desconexão entre a elite do futebol e suas bases sociais pode enfraquecer o que torna o esporte tão relevante.
Por fim, Lahm sugere que as instituições que fiscalizam o futebol devem atuar com independência e em prol do interesse coletivo. Ele acredita que entidades sem fins lucrativos, como a Uefa, seriam mais adequadas para essa tarefa do que aquelas guiadas por interesses comerciais. A crítica de Lahm também se estende à Fifa e ao seu presidente, Gianni Infantino, questionando iniciativas que, segundo ele, favorecem a privatização dos ganhos do futebol e a flexibilização das regras para beneficiar figuras influentes. Para ele, a credibilidade do esporte depende da aplicação rigorosa de normas, incluindo para os clubes mais poderosos.