Haiti faz história ao enfrentar a Itália em 1974

Quando a seleção do Haiti entrar em campo para enfrentar a Escócia, neste sábado (13), será um momento histórico. Depois de 52 anos, o Haiti retorna à Copa do Mundo, um feito que vem com uma carga emocional e simbólica enorme. A trajetória do time caribenho até aqui não foi fácil, marcada por desafios tanto dentro quanto fora de campo. As Eliminatórias, por exemplo, foram realizadas em campos neutros, devido à crise de segurança que o país enfrenta, com a violência das gangues sendo uma realidade alarmante.

Essa será apenas a segunda vez que o Haiti participará de um Mundial. A primeira ocorreu em 1974, na Alemanha Ocidental. Naquela edição, o time não conseguiu vencer nenhum jogo, mas um momento específico ficou gravado na memória dos torcedores: o gol de Emmanuel “Manno” Sanon contra a poderosa Itália. Esse gol não foi apenas uma simples conquista; ele teve um peso histórico imenso, pois Sanon quebrou uma sequência defensiva impressionante, superando o renomado goleiro Dino Zoff, que na época não sofria gols há mais de mil minutos.

### O Haiti em 1974: Um Azarão no Mundial

A seleção do Haiti chegou ao Mundial de 1974 como um verdadeiro azarão. A vaga foi conquistada ao vencer o Campeonato da Concacaf em 1973, que servia como eliminatória. No sorteio, o Haiti encontrou um grupo difícil, com a Itália, Argentina e Polônia. A estreia, no dia 15 de junho, foi contra a Itália, que era uma das favoritas ao título.

O jogo foi realizado no Estádio Olímpico de Munique, e a Itália, que já tinha sido vice-campeã em 1970, era conhecida por sua defesa sólida, liderada por Zoff. O goleiro chegava a impressionar com uma sequência de 1.142 minutos sem sofrer gols, uma marca que refletia sua segurança em campo.

No entanto, o primeiro tempo terminou em 0 a 0, algo que surpreendeu os italianos. No segundo tempo, aconteceu o que muitos consideravam impossível. Sanon, com uma jogada habilidosa, recebeu um lançamento de Philippe Vorbe e, em alta velocidade, deixou os defensores italianos para trás. Ele conseguiu driblar Zoff e empurrou a bola para o fundo das redes. O Haiti estava à frente da Itália, e a incredulidade tomou conta do jogo.

### Um Gol que Fez História

Embora o Haiti tenha perdido a partida por 3 a 1, com gols da Itália marcados por Gianni Rivera, Romeo Benetti e Pietro Anastasi, o impacto do gol de Sanon foi muito maior do que o resultado final. A história daquele momento ecoou por décadas. Zoff era considerado um dos melhores goleiros do mundo, e para um jogador haitiano, até então pouco conhecido, ter conseguido superá-lo foi uma vitória simbólica.

Sanon estava ciente do desafio que enfrentava e ficou incomodado ao ver a mídia se perguntar quais craques europeus ou sul-americanos poderiam superar Zoff, sem mencionar um jogador haitiano. Ele respondeu com um gol que se tornou um marco na história do futebol.

Além disso, na última rodada do grupo, Sanon voltou a marcar, desta vez contra a Argentina, tornando-se o único jogador haitiano a marcar em Copas do Mundo até hoje. Seus dois gols seguem sendo os únicos da seleção na competição.

Depois do Mundial, Sanon ganhou destaque internacional e se transferiu para o futebol belga, onde jogou pelo Beerschot. Com o tempo, ele se tornou uma lenda no esporte haitiano, e sua memória persiste, mesmo após seu falecimento em 2008. Sanon representa uma geração que conseguiu colocar o Haiti no mapa do futebol mundial.

Agora, mais de 50 anos depois daquela histórica tarde em Munique, o Haiti volta à Copa do Mundo. A seleção de 2026 está pronta para escrever novos capítulos, mas a imagem de Sanon, com seu drible em Zoff e o gol que quebrou um recorde, sempre será um símbolo da trajetória do país no torneio.

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João Ribeiro