Pós-Copa revela desafios para o crescimento do futebol brasileiro

Depois de uma Copa do Mundo, é comum rolar uma certa “depressão” no futebol brasileiro. A adrenalina dos jogos e a emoção da competição mundial deixam um vazio quando voltamos à rotina do nosso campeonato. Isso já acontecia quando eu era criança, e eu sempre lia sobre esse sentimento nas edições da Placar após o torneio.

Em 2026, o futebol brasileiro vai precisar lidar com uma realidade difícil: é complicado manter o entusiasmo dos torcedores sem a magia da Copa. O dia a dia do nosso futebol parece ser feito sob medida para os apaixonados, mas acaba afastando quem curte o esporte de maneira mais casual. Quando a Copa acaba, os mesmos problemas de sempre aparecem, e a falta de qualidade técnica nos jogos acaba desanimando até os mais fanáticos.

Um exemplo claro disso foi o último fim de semana da Copa do Brasil, que teve quatro empates sem gols em sete partidas. Não dá para negar que isso desanima. O que se discute com frequência são as reclamações sobre arbitragem, como se isso fosse o principal assunto do nosso futebol. O torcedor costuma se sentir prejudicado com decisões polêmicas, desde o uso do VAR até lances que geram discussões acaloradas.

As polêmicas são parte do futebol em todo o mundo, mas no Brasil, a situação parece ser mais intensa. Parece que todo mundo só quer se ouvir e não há espaço para um diálogo real. Dirigentes, jogadores e a imprensa muitas vezes se aproveitam dessa agitação para desviar o foco de outros problemas. É engraçado pensar que, em um dia de jogos sem gols, os clubes acabaram soltando mais notas oficiais reclamando de arbitragens do que comemorando bolas na rede.

Nesse cenário, precisamos considerar como as pessoas que não são tão fanáticas veem o futebol. Muitas acham essas discussões bobas e têm dificuldades em acompanhar os jogos, especialmente com a quantidade de plataformas e horários que tornam tudo ainda mais confuso. Além disso, os ingressos estão cada vez mais caros e os estádios, mais elitizados. Essa realidade pode afastar novos torcedores.

No último fim de semana, uma pesquisa da Datafolha revelou que quase 64% dos brasileiros ainda se interessam por futebol. No entanto, apenas 28% se consideram muito interessados, enquanto 35% têm um interesse mais moderado. Isso significa que menos de um terço da população é realmente fã do esporte, e o futebol que está sendo oferecido parece ignorar a maioria.

Nos jogos, vemos muitas paralisações, simulações e reclamações. A cultura do “quem grita mais” acaba dominando o ambiente, com influenciadores e jornalistas criando um clima de guerra digital em defesa de seus times. E, muitas vezes, quem tenta criticar essa situação é atacado. É uma dinâmica que não faz bem para o esporte.

Lá em 1998, logo após a Copa, a revista Placar já apontava problemas que o futebol brasileiro precisava resolver, como filas enormes para comprar ingressos e a falta de organização nos estádios. Algumas coisas melhoraram desde então, mas ainda há muito a ser feito. Antes de pensarmos em internacionalizar o futebol, seria bom entender o que pode ser corrigido para atrair mais torcedores.

Em um país com mais de 210 milhões de habitantes, é pouco se contentar com apenas um terço da população como público fiel. O futebol brasileiro ainda tem um longo caminho a percorrer se realmente quiser ser um esporte de massa. Essa é uma oportunidade não apenas para elevar o interesse no futebol, mas também para criar um ambiente mais acolhedor para todos os torcedores.

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Rafael Souza