Premier League propõe nova regra para acabar com cera de goleiros

Nos últimos anos, as mudanças nas regras do futebol têm sido direcionadas a um objetivo muito claro: aumentar o tempo em que a bola realmente rola durante as partidas. A introdução do impedimento semiautomático, os acréscimos mais longos, as novas limitações para os goleiros segurarem a bola e as punições mais severas para reclamações são alguns exemplos dessa busca.

Recentemente, o futebol inglês está se preparando para mais uma inovação que visa reduzir as interrupções em campo. Segundo a “BBC Sport”, a federação inglesa, a Premier League e outras ligas chegaram a um acordo para testar uma nova regra. Essa proposta tem como foco acabar com uma prática que se tornou comum: o goleiro pedir atendimento médico apenas para dar um tempo ao jogo e permitir que o treinador reorganize a equipe ou quebre o ritmo do adversário.

Se essa regra for aprovada pela International Football Association Board (Ifab), que define as normas do futebol, os testes podem começar já na primeira fase da Copa da Liga Inglesa. Essa mudança é vista como uma das mais inteligentes discutidas recentemente, pois, em vez de apenas punir comportamentos, busca eliminar o incentivo para que eles ocorram.

### O problema da “cera” no futebol

Um dos pontos que preocupa as entidades do futebol é quando um goleiro cai no gramado para “fazer cera”. Isso acontece com frequência: enquanto médicos e fisioterapeutas entram em campo, os outros dez jogadores se reúnem com o treinador, que aproveita a pausa para ajustar as táticas ou simplesmente acalmar a equipe. Depois de um ou dois minutos, o goleiro levanta e o jogo recomeça, como se nada tivesse acontecido.

Esse tipo de situação se tornou tão comum que já não parece apenas uma coincidência. Em muitos casos, o atendimento médico é mais uma estratégia para criar uma pausa do que uma necessidade real. Essa pausa não só permite uma reorganização tática, mas também quebra o ritmo do time adversário, que precisa esperar para reiniciar a partida.

Na última temporada, por exemplo, o técnico Daniel Farke denunciou Gianluigi Donnarumma por usar uma suposta lesão para interromper o ímpeto do Leeds contra o Manchester City, o que só reforçou a percepção de que esse comportamento se tornou uma ferramenta tática.

### A proposta do futebol inglês

As entidades inglesas propuseram uma solução simples e criativa para esse problema. Atualmente, quando um jogador de linha recebe atendimento médico, ele precisa sair de campo por cerca de um minuto. No entanto, os goleiros sempre foram tratados como uma exceção. A ideia é que, ao invés de retirar o goleiro do jogo, outro jogador de linha saia temporariamente.

Como vai funcionar? Se o árbitro autorizar o atendimento, o treinador terá dez segundos para indicar qual jogador deve deixar o campo. Esse jogador ficará fora por um minuto antes de voltar normalmente. Se o treinador não fizer a escolha a tempo, o capitão da equipe terá que sair. Assim, o goleiro permanece em campo, mas a equipe jogará com um a menos por um tempo.

Essa mudança não tem o objetivo de descobrir se o goleiro está realmente machucado ou não, o foco é aumentar o custo do atendimento médico. Antes, o goleiro poderia simular uma lesão e a equipe não sofria penalidades significativas. Agora, a dúvida será se vale a pena um minuto de descanso se isso significa jogar com menos um atleta.

### Estimulando a conversa, mas sem a cera

Um ponto interessante da proposta é que os jogadores ainda poderão se reunir perto da linha lateral e os treinadores poderão continuar dando instruções. A intenção não é proibir as conversas, mas sim desestimular que elas sejam provocadas de forma artificial.

Os dirigentes do futebol inglês perceberam que simplesmente impedir os jogadores de se aproximarem da área técnica não resolveria o problema, pois os técnicos sempre encontrariam outras maneiras de se comunicar. Portanto, a solução é fazer com que a saída temporária de um jogador represente um risco competitivo maior do que o benefício da pausa. Assim, as paradas desnecessárias tendem a desaparecer.

### Exceções e preocupações

Claro que a regra não será aplicada em qualquer situação. Os organizadores definiram exceções para evitar que jogadores realmente lesionados deixem de procurar atendimento por medo de prejudicar a equipe. Se o goleiro não precisar de atendimento, se houver uma colisão entre jogadores da mesma equipe, ou se ele sofrer uma falta que exija atendimento imediato, a saída temporária não será necessária.

Ainda há preocupações de que alguns goleiros possam tentar permanecer em campo mesmo sentindo dor para evitar que a equipe jogue com um a menos. Esse é um dos aspectos que a Ifab vai monitorar durante os testes.

Nos últimos anos, muitas mudanças importantes no futebol começaram a ser implementadas na Inglaterra antes de serem adotadas mundialmente. Agora, mais uma vez, a Premier League e as outras competições inglesas estão se posicionando como um laboratório para o futebol global. Se a nova proposta se mostrar eficaz, pode muito bem se tornar uma regra definitiva a partir da temporada 2027/28, transformando a forma como o jogo é jogado e atacando uma das estratégias mais criticadas do futebol moderno.

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Rafael Souza